Azuila Costa

Meu nome é Azuila Costa, tenho 18 anos e decidi entrar em transição nesse ano. Estava procurando me descobrir e comecei pelo cabelo. Usava produtos químicos desde muito nova, acho que desde os 8 anos, que foi a fase do ensino fundamental... Todas as meninas tinham o cabelo liso e tendo o cabelo crespo, elas me chamavam de “cabelo pixaim” “Bombril” ou algo do gênero. Ainda mais sendo negra... Eu alisava porque achava que o cabelo liso era mais bonito que o meu. A sociedade me impôs isso, mas chegou um ponto que dei um basta e disse pra mim mesma “não quero mais isso”. Vi fotos de outras mulheres negras, como a Taís Araújo que já passou pelo processo da transição e conheci a Kessidy, que tem um cabelo maravilhoso, é uma mulher emponderada e tudo isso me influenciou. Pensei “por quê não eu também?”. Quando a metade do cabelo cresceu, decidi cortar bem curtinho. 
Foi um choque pra todo mundo. Uma amiga me sugeriu de eu alisar (de novo)... Falei “eu adoro ele. Eu assumi. Deixa ele ser feliz que eu sou feliz junto com ele”. Acho que as pessoas ainda não estão acostumadas com o emponderamento negro.   

Quando eu era atleta, treinava ginástica olímpica na UFMT e muitos filhinhos de papai treinavam lá também. Eu sempre fui aquela menina, segundo eles “preta, pobre e do cabelo mal esticado”. As que tinham o cabelo liso, sempre me incentivavam “vamos no salão alisar seu cabelo direito” e nunca o contrário. Sempre queriam que eu alisasse mais, sem mesmo saber se eu estava interessada nisso. 

Acho que esse processo todo é uma corrente de irmandade. Fui em uma reunião do MST e uma menina de 8 anos de idade veio conversar comigo. Ela de cabelo alisado, me falou “nossa, seu cabelo é lindo, você é linda”, respondi “obrigada! Você também é linda. E o seu cabelo é liso naturalmente ou você fez algum processo químico?” “eu alisei” “e por que você alisou?” “as minhas amigas da escola falam que meu cabelo natural é pixaim”, falei pra ela “seu cabelo não é pixaim. Seu cabelo é bonito igual ao meu e pode ficar ainda mais bonito” “sério?” “sério!” e ficou me perguntando o que fazer pro cabelo dela voltar ao natural. Dei dicas e essa semana ela me mandou a foto com o cabelo curtinho e sem química. Esse diálogo, principalmente com criança, é muito importante. A minha mãe vivia doente, não tinha tempo pra conversar. Na escola era muito difícil... Tenho irmãos gêmeos e um era afeminado. Tudo isso era usado pra me atingir, porque eu era negra, porque meu irmão era afeminado, porque minha mãe era obesa, porque eu tinha o cabelo “pixaim”... Isso reprime de uma tal forma. Eu tive que ter muito controle. Já vi criança querendo se matar ou matar um ou outro por causa de ofensa. Infelizmente, é a realidade de muitas crianças do Brasil. Eu já passei por muita coisa, mas ter contato com essas mulheres do MST me renovou. Fiquei feliz e com raiva ao mesmo tempo. Ouvi história de família que saiu pra reunião e quando voltou, a casa estava queimada. Trabalham 9 horas por dia cortando cana pra ganhar 150 reais. Chamam isso de salário... E ainda tem patrão que atrasa. Quase todas as mulheres tem mais de 6 filhos. Isso aqui em Mato Grosso, onde a economia é a agricultura, onde um dos maiores exportadores do MUNDO mora. E não pense você que tem branquinho ou branquinha cortando cana... Não tem. Olhava ao meu redor, os garis são negros, as faxineiras são negras... Aí você olha pra recepção: brancos. Administração: brancos. O negro hoje pra fazer uma faculdade é difícil... Agora pro branco é tão simples.
2016 pra mim começou maravilhoso, me sinto uma mulher emponderada. O mais importante desse processo é eu me sentir bonita, o resto deixo pra depois. Me sinto linda, maravilhosa, me sinto bem.


Amanda Brissa

Meu nome é Amanda Brissa, tenho 21 anos. Decidi entrar em transição no 3º ano do ensino médio por cansaço mesmo... Eu não aguentava mais ter que ir ao cabeleireiro de 3 em 3 meses. Quando parei, foi horrível porque meu cabelo era no ombro e cortei chanel, daí ficou aquela raiz natural com pontas lisas. Isso foi motivo de ofensa na escola, colocavam apelido e eu não sabia o que fazer, porque era algo importante pra mim mas as pessoas não estavam nem aí. Minha mãe, no começo ficou muito assustada com a decisão, mas passou a me apoiar. Foi uma escolha minha, baseada em questões sociais. O motivo de eu ter começado a usar química com 14 anos, foi o de não me sentir incluída e nem me ver nos espaços. 

Descobri que eu não sabia cuidar dos cachos. Nem eu e nem a maioria das pessoas. Iniciei uma pesquisa sobre isso e acabou que eu mesma fui cortando e tirando as pontas lisas em casa. Foi uma fase ótima porque eu me aproximei do meu cabelo e aprendi a gostar dele.
A minha mãe também acabou abandonando a química por ter acompanhado minha transição. As pessoas tem um conceito errado sobre o cabelo que não é liso. Acham que os produtos são caros, que exige um trabalho enorme, quando não é verdade. Hoje eu e minha mãe somos adeptas do low/no poo e compramos produtos baratinhos.
Já perguntei pra algumas meninas na rua “por que você alisa seu cabelo?” e a maioria das respostas era “ah, porque minha mãe acha feio”. Me dá uma dor... 

Hoje eu me sinto mais eu. Antes era como se eu quisesse ser uma pessoa que eu não sou e ficava nessa de “quero ser mais bonita”, mas o cabelo nunca ficava do jeito desejado e acabei entrando em conflito. Atualmente, me sinto muito mais autêntica, parece que me encontrei dentro de mim, porque antes estava perdida. A partir do corte do cabelo comecei a me inteirar socialmente e politicamente. Começa com essa desconstrução da negação do cabelo e quando fui atrás disso, me descobri em outros âmbitos, descobri de onde eu vim. 


Jackeline Silva

Meu nome é Jackeline Silva, tenho 30 anos. Já fiz várias experiências no meu cabelo, mas da infância até a adolescência, faltavam formas de tratamento para o cabelo crespo e a solução era fazer o relaxamento e com o passar do tempo, os alisamentos. A minha mãe, as minhas primas, todas elas alisavam e acabei entrando nessa também. Aos 20 anos, percebi que a decisão de manter o cabelo liso já era uma escolha minha. Eu achava mais fácil lidar com aquele cabelo porque era o modo que aprendi... Então, era mais cômodo continuar mantendo aquela técnica, até que um dia, resolvi romper com tudo isso. Depois que tirei as tranças, vi que estava metade crespo e metade alisado, fui no salão pedir pra cabeleireira cortar bem curtindo, na máquina 1. Quando começou crescer, foi muito legal pelo fato de eu ter acompanhado todo o crescimento do cabelo. Na época que estava no meio termo, os turbantes me ajudaram muito na questão da autoestima. Além de ser um item da cultura afro, ajuda muito nesse processo de transição, junto com as tranças e os dreads também. Já tive dread e senti que com ele as pessoas estranhavam e rolava mais preconceito.

Eu fui me tornar negra com 14 anos. Um professor de língua portuguesa dividiu a sala em grupos e o meu tema foi racismo. Fiquei me perguntando o motivo de eu ter sido escolhida pra falar sobre. Comentei com a minha mãe e naquela época não tinha google, ela me recomendou uma professora para me ajudar. Peguei um monte de material no Conselho de Direitos do Negro e comecei a ler... Pra uma adolescente de 14 anos, quando comecei a ler aquelas coisas, eu não sabia se eu ficava chocada, se eu ficava orgulhosa... E foi a partir de então, que entrei no movimento de mulheres negras. Pensei comigo “uma vez que tomei consciência que as coisas são assim, eu não posso deixar que permaneçam do mesmo jeito”. A militância foi muito importante pro meu crescimento pessoal e espiritual. Apesar de eu não participar de nenhuma religião de matriz africana, respeito muito. Meu avô era benzedor e eu tenho um carinho muito grande a tudo que é relacionado ao negro e ao quilombola. Eu preciso defender porque é o meu sangue, não tem como negar. Não basta você nascer com a pele negra, é preciso se identificar e se reconhecer para se auto afirmar, senão você passa a vida inteira sofrendo racismo sem saber que tá sendo discriminado. 

Hoje, com 30 anos, vejo que agora em 2016 tem um movimento muito grande e intenso da valorização da estética negra. As mães de crianças negras tem procurado fortalecer a autoestima, no sentido de não fazer alisamento, porque isso é péssimo. Ver essas adolescentes e crianças usando o cabelo crespo/cacheado me deixa muito orgulhosa! Saber que eu passei por tudo isso e, ver que hoje elas já começam a vida dessa forma, sem precisar lidar com uma transição é maravilhoso.
Foi engraçado que quando tirei as tranças, voltei no salão que eu frequentava e a cabeleireira (que, inclusive, já alisou meu cabelo) viu meu cabelo natural e decidiu largar a química também. Foi aí que eu percebi o poder do cabelo afro, que não é só uma questão estética, é uma afirmação da identidade.  


Tamires Stefany

Meu nome é Tamires Stefany, tenho 21 anos, sou do Maranhão e em 2013 vim à Cuiabá para estudar. Fiz a matrícula na particular, mas fiquei na lista de espera da federal. Resolvi voltar pra minha cidade, esperar sair o resultado e fui chamada. Nesse período, comecei a perceber que meu cabelo estava caindo demais, quebrando demais, tudo por conta da química. Via várias meninas negras na internet assumindo os cachos, segui algumas e recebi várias dicas de receitas caseiras, o que me motivou muito. Pensava sobre esse assunto e ficava com muito medo de não dar certo “será que meu cabelo vai voltar?”... Eu alisava desde de os 15 anos, então fiquei com muito medo. Antes disso, ele era cacheado, mas eu não sabia cuidar. Todas as mulheres da minha família alisavam... Vó, prima, mãe... Em 2013 tomei a decisão, fui no salão da minha rua e cortei bem curtinho. Foi uma negação... Uma vizinha chegou pra mim e disse “nossa, como você teve coragem? Seu cabelo era tão lindo e agora tá tão feio”. As pessoas tiravam sarro, mas não desanimei. Segui as dicas das meninas e comprei os cremes. 

Voltei à Cuiabá e aqui as coisas foram diferentes. Na faculdade, eu via mais crespas e cacheadas, o que me estimulou. Pensava “se elas conseguiam passar por isso, eu também consigo”. Também comecei a entender mais sobre essa lógica do cabelo, do racismo e da aceitação. Antes, eu ouvia certas coisas, mas achava que era “nomal”. Cansei de ouvir aquela música “nega do cabelo duro, que não gosta de pentear”, cantavam pra mim direto. Percebia também na questão da socialização... Minhas vizinhas não brincavam comigo, não me chamava pra casa delas, esse tipo situação. Eu não entendia, hoje que fui entender.

Uma menina da minha cidade veio me perguntar como eu fiz para o meu cabelo “voltar”, porque ela queria passar pela transição também e dei várias dicas, indiquei vídeos, falava sobre a minha experiência. Ela disse que eu era uma inspiração. É gratificante demais, é um retorno. Ela se sentiu estimulada porque viu que eu consegui.
Percebo o peso que essa decisão teve na minha autoestima. Eu me sinto muito melhor assim, sinto que me conheço.  


Larissa Thaíza

Meu nome é Larissa Thaíza e sou de Cuiabá. Comecei atransição em meados de 2015 com 18 anos. Me lembro que no natal de 2014 ganhei uma quantia em dinheiro da minha avó e minhas primas que tinham o cabelo mais liso, faziam planos de comprar brinquedos e outras coisas. Enquanto isso, eu só pensava em usar a verba pra alisar meu cabelo e aquilo não me trazia nenhum tipo de benefício. Comecei a me questionar o porquê de eu ainda fazer aquilo e resolvi ir atrás. Vi que já tinha uma movimentação de pessoas largando a química.

Fiz meu primeiro relaxamento aos 10 anos por influência de uma tia conhecida da minha mãe. A moça me levou no salão para fazer um relaxamento e “abrir” os cachos.


Como criança, a respeito da percepção das pessoas, eu confesso que não entendia muito bem porque eu ia para escola como qualquer outra com tranças no cabelo. Minha mãe dizia “não vai soltar seu cabelo na escola”. Parecia que ele era um bicho ou sei lá. Acho que ela falava por medo e também porque ninguém pararia para trançá-lo novamente.

Tinha uma piscina na escola e quando as meninas banhavam, lavavam o cabelo com shampoo quando saiam e eu não. Eu tinha que banhar de trança e ir do jeito que saí para casa. Se eu lavasse, não daria conta de prender, então eu ficava assim. Me perguntava o porquê de ter que passar por isso. Só sabia que era tratada diferente.


Temos aquela ideia de que alisando fica mais fácil de cuidar, só que não fica. Sempre tinha uma série de problemas... Queda, corte químico, fora o tempo de todo o processo.

Achei que sentiria muita falta do cabelo liso, do visual. Mas eu realmente não senti. Já estava cansada daquela imagem e do trabalho que eu tinha. Sempre ter que passar chapinha pra sair, ficar ansiosa com o suor porque o cabelo enrolava.

Por conta dos produtos não darem aquele “sonhado” efeito, minha autoestima ficava abalada. O cabelo ressecava e ficava com frizz. Se chovesse, pra mim o dia tinha acabado.

Antes eu mal dormia porque eu tinha que fazer chapinha um dia antes de ir pro colégio, então acordava muito cansada. Eu não vivia pra mim. Vivia em função do meu cabelo. Minha autoestima dependia do meu cabelo e dessa percepção alheia.

Se eu tivesse, por exemplo, alguma apresentação no colégio e o cabelo não estivesse escorrido, eu já sentia uma insegurança com relação ao meu desempenho. 

Foi um processo complicado pra cortar. O corte ficou muito bom, mas o cabeleireiro não entendia meus motivos e tentou me convencer a não passar a tesoura. Segundo ele, “não combinava”. Perguntou se era algum problema na família ou com namorado. Eu rio hoje, mas na hora ele insistiu muito, mas mantive minha decisão. Ele acabou desistindo e cortou, entretanto, enfatizou: “vou fazer o corte que você quer, só que um pouco maior porque se você entrarem depressão, tem como colocar mega”. Inclusive, ele me apresentou a mulher que colocava mega no salão.

Ainda ouço uns comentários bizarros de vez em quando. Uma moça que estava me entrevistando pra um estágio já me perguntou como eu lavava o cabelo. Sinceramente, eu me divirto e dou risada com a ignorância das pessoas.

Também odeio andar pelo centro. Tenho que passar por lá todo dia e às vezes fico na faculdade até tarde só para não precisar enfrentar uma multidão de pessoas olhando e mexendo comigo. O que me perturba é que não consigo identificar os olhares. Se estão achando bonito ou feio. Fico muito ansiosa.

Hoje eu sinto que, finalmente, tenho uma autoestima quepertence a mim.



Talissa Arruda

Meu nome é Talissa de Arruda e tenho 19 anos. Comecei a transição capilar em fevereiro de 2016. No meu caso, foi mais pela estética porque meu cabelo não crescia mais. Ficava sempre ralo, caindo e eu não tinha muito cuidado. Foi aí que eu resolvi deixar a química.

Comecei alisar o cabelo com 8 anos por vontade da minha mãe. Quando o cabelo é crespo é mais difícil de lidar e as mães procuram alisamentos por não terem tempo ou por ser mais “fácil”. Eu não reclamei porque pra mim também facilitou até um certo ponto.

Meu cabelo sempre foi muito forte, então mesmo alisando, a raiz logo aparecia, o que me deixava agoniada. Principalmente por causa dos apelidos na escola. Me chamavam de para-raio e já cheguei diversas vezes chorando em casa. Naquela época o alisamento era caro mas eu insistia pra minha mãe apelar até para os produtos de farmácia.

Hoje eu percebo coisas que não percebia anos atrás. Por ter a pele mais clara, sou mais aceitável nos grupos, porém ainda sou excluída e ouço certas coisas. 

Eu chorei muito quando cortei porque sou muito impulsiva. No dia em que decidi, nem pensei. Não sabia o que eu faria com o cabelo depois. Comisso aprendi a nunca ficar pra baixo. Se você fez, tá feito. Agora segue em frente.

Pesquisei, entrei em grupos, comprava produtos... Meu salário era só pra isso. Quando meu cabelo era liso eu não tinha vontade alguma de cuidar dele. Pensava “se eu molhar, vou ter que escovar e passar chapinha de novo” e desistia. Com ele natural, fiquei mais cuidadosa. 

Até mesmo minha irmã, quando me via de cabelo liso, pedia pra alisar e depois que eu assumi, acabou refletindo nela. Ela só usava o cabelo preso, inclusive até arrancava os fios da frente e tivemos que levá-la ao psicólogo. Depois da minha decisão, ela ficou animada com a beleza dela e sempre me fala quando ganha algum produto novo. Minha cunhada também largou a química por influência minha. A incentivei e divido meus produtos com ela.

Minha mãe às vezes reclama das tranças porque ela que “chama atenção”. Principalmente por causa de oportunidades de emprego. Digo a ela que se a empresa não me quiser assim, eu é que não quero estar lá. Não sei o que as pessoas têm que negro não pode chamar atenção. Parece que temos que ficar no canto só de decoração. 

Na faculdade por exemplo, faço direito no campus do shopping e uns olham meio torto porque eu falo mesmo, questiono mesmo. As pessoas esperam que sejamos omissos e invisíveis, mas estou aqui com as minhas tranças coloridas e me posicionando. Por que em vez de olhar, as pessoas não sentam para conversar?

Hoje me sinto mais confiante até mesmo pra me posicionar. É importante se aceitar. Me sinto mais leve. Não me sinto refém de uma situação. Não acordo pensando que tenho que passar chapinha, comprar o produto... Acordo, lavo o cabelo, finalizo e saio. Me sinto leve e autêntica.


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